Chefe-geral do setor de agroenergia da EMBRAPA (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), Frederico Durães fala à Altenergy sobre o atual panorama do biodiesel no Brasil, o Programa Nacional de Produção e Uso de Biodiesel e as perspectivas para o futuro do setor no País:

Altenergy: Em que estágio de desenvolvimento tecnológico se encontra a

produção de biodiesel no Brasil hoje, e onde deveria, ou poderia, estar?

Frederico Durães: O Programa de Produção e Uso de Biodiesel no Brasil é relativamente novo, na amplitude e densidade. Atualmente, na fase de produção agrícola, a matéria-prima, vegetal ou animal, é o principal gargalo. Na fase industrial, o gargalo é visto como de distribuição, por conta da necessidade de infraestrutura e logística competentes. No curto prazo e por questões de escala, a produção de biodiesel está baseada em poucas variedades de matérias-primas. Trata-se de um programa complexo, de amplo interesse para o Brasil, e as pesquisas públicas e privadas buscam ampliar o domínio tecnológico para fins de consolidação do programa de biodiesel nos próximos dez anos. Outros componentes sócio-econômicos e ambientais a serem agregados ao programa são: o foco em produção energética renovável e a inclusão regional.

Altenergy: De que modo a diversidade do ecossistema brasileiro favorece o desenvolvimento do biodiesel no país? Como o Programa Nacional de Produção e Uso de Biodiesel (PNPB) pretende incentivar a realização de pesquisas com as diferentes matérias-primas utilizáveis na produção?

 

Frederico Durães: Energia renovável, especialmente energia de biomassa, deve, preferencialmente, ser produzida e consumida regionalmente. Com isto, o PNPB orienta ações técnico-científicas com diferentes matérias-primas com afinidades para cada uma das regiões do Brasil. Para o Brasil continental, multivariado do ponto de vista de solos, clima, arranjos produtivos, dentre outros aspectos, esta diversidade faz parte da

nossa equação para produzir biodiesel no país. Os programas de pesquisa incorporam estas variações, e focam objetivos no interesse de produzir, de forma agregada, as melhores matérias-primas oleaginosas e fontes de gorduras animais (aves, suínos, bovinos). Para as matérias-primas tradicionais, com domínio tecnológico e produtividade de 500-700 l de óleo/hectare, como por exemplo a soja, o girassol e a mamona, busca-se aumentar a eficiência produtiva, no curto prazo, e, para matérias-primas potenciais, por exemplo as palmáceas (macaúba, inajá, buritis), de alto potencial de rendimento (acima de 3000 l de óleo/hectare), busca-se domínio tecnológico, capaz de aumentar a oferta de matéria-prima e contribuir para a consolidação do programa de biodiesel no Brasil.

Altenergy: O que os investidores estrangeiros em biodiesel devem esperar do Brasil em termos de avanços científicos na área, e como eles podem contribuir com esses avanços?

Frederico Durães: Os investidores internacionais têm no Brasil uma importante oportunidade de negócios. Atualmente, matérias-primas, processos de conversão e aplicação e uso de resíduos e co-produtos acenam com potencial de crescimento. Entretanto, há que considerar a necessidade de planejamento das ações de entorno da usina de biodiesel, focando no potencial regional de produção e na adequação, dimensão e logística para matérias-primas, organização de produtores, usinas de esmagamento e de

transformação, logística, emprego e renda. Para a produção de biodiesel, matérias-primas de alto potencial produtivo, eficientes processos de conversão, valor agregado à aplicação de resíduos e co-produtos, logística de estocagem e transporte e testes de motores são objetos de pesquisas em andamento, com resultados parciais ou conclusivos promissores.

Altenergy: Quais as expectativas para o crescimento da produção de biodiesel para as próximas décadas?

Frederico Durães: A Lei de Biodiesel estabelece para o início de 2008, como obrigatório o uso de B2 (2% da mistura biodiesel no petrodiesel) para fins combustíveis, notadamente para motores veiculares. Isto equivale a cerca de 1 bilhão de litros de biodiesel. E, ainda estabelece o B5 para o ano de 2013 (cerca de 2,4 bilhões de litros de biodiesel), como obrigatório. O Programa de Aceleração do Crescimento (PAC 2007-2010), lançado pelo Governo Federal em 2007, antecipa a meta B5 para 2010 com 3,3 bilhões de litros de biodiesel. Para um consumo atual de cerca de 43 bilhões de litros de petrodiesel, e por demandas mundiais crescentes por energia renovável, as expectativas de crescimento da produção de biodiesel são favoráveis ao Brasil, porquanto temos recursos naturais e competência técnica e gerencial para ampliar a oferta de biodiesel, com atenção aos índices técnicos e econômicos, e também social e ambiental – elementos imprescindíveis para a commoditização de produtos renováveis.

 
 
 

Altenergy: In which stage of technological development is the Brazilian biodiesel production today, where it should or could be?

Frederico Durães: The National Program of Use and Production of Biodiesel in Brazil is relatively recent in amplitude and density. Currently, the greatest challenge in the agricultural production phase is the animal or vegetable raw material. On the industrial phase, the challenge is the distribution, due to the necessity of qualified logistic infrastructure. In short term, and for scale purposes, biodiesel production is based on a very little range of raw material. It is a very complex program, of great concern for Brazil, and the public and private researches are aiming to increase the technological domain towards the biodiesel program consolidation in the next ten years. Some other socioeconomic and environmental components to be added to the program are the focus on renewable energy production and regional inclusion.

Altenergy: How does the Brazilian ecosystem diversity support the biodiesel development in the country? How does the National Program of Use and Production of Biodiesel (PNPB) intend to promote the performance of researches with the different raw materials usable in the production?

Frederico Durães: Renewable energy, especially biomass energy, must be preferentially produced and consumed regionally. Therefore, PNPB guides technical-scientific actions with different raw materials with affinities to each one of the Brazilian regions. For the continental Brazil, multi-varied in respect to soils, climate, productive arrangements, among other aspects, such diversity is part of our equation to produce biodiesel in the country. The research programs incorporate such variations and focus in objectives aiming at producing, aggregately, the best oily raw materials and animal fat sources (poultry, swine and cattle). For more traditional raw materials, with technological domain and productivity of 500-700 liters of oil per hectare, such as soy, sunflower and castor beans, it is expected to raise productive efficiency in a short term period and, for potential raw materials, such as palms (macaúba, inajá, buritis), of high yield potential (above 3000 liters of oil per hectare), we search for technological domain, capable of increasing raw material offer and contribute to consolidate the biodiesel program in Brazil.

Altenergy: What should biodiesel foreign investors expect from Brazil in terms of scientific progress and how can they contribute for such progress?

Frederico Durães: International investors have an important opportunity of business in Brazil. Currently, raw materials, conversion and application processes and use of residues and co-products have great growth potential. However, it is important to consider the necessity to plan actions regarding to biodiesel production, focusing on the regional potential of production and on the logistics, dimension and adequacy for raw materials, producers’ organization, transformation and crushing plants, employment and revenue. For the biodiesel production, high productive potential raw materials, efficient conversion processes, value added to residue and co-products application, logistics, transportation and engine tests are objects of researches in progress, with promising partial or conclusive results.

Altenergy: What are the expectations for the growth in the biodiesel production for the next decades?

Frederico Durães: The Biodiesel Law establishes, for early 2008, mandatory use of B2 (2% of biodiesel mixture on common diesel) for fuel ends, especially for automotive engines. This is equivalent to about 1 billion liters of biodiesel. It also establishes mandatory use of B5 for 2013 (about 2.4 billion liters of biodiesel). The Programa de Aceleração do Crescimento - Acceleration Growth Program - (PAC 2007-2010), released by the Federal Government in 2007, anticipates the B5 goal for 2010 with 3.3 billion liters of biodiesel. For a current consumption of 43 billion liters of diesel and for growing world demand for renewable energy, the expectations for increased production of biodiesel are favorable to Brazil, considering we have natural resources and technical and managerial competence to increase the biodiesel supply, paying attention to technical, economical, social and environmental issues – indispensable elements to convert the renewable products into commodities.