Nas mãos do empresariado, o futuro do biocombustível brasileiro
Aumento da diversificação, complexidade e importância do setor exigem práticas de governança de empresas cada vez mais focadas e abrangentes

O Brasil tomou a dianteira na produção e desenvolvimento de biocombustíveis no mundo. Se o momento do setor sucroalcooleiro é bom, e tem um cenário favorável para os próximos anos, a
 

capacidade de suas empresas em gerir os negócios será muito importante para manter o País na vanguarda dos combustíveis não-poluentes.

Acompanhar o desenvolvimento científico e tecnológico das outras empresas ao redor do globo é benéfico não apenas à economia nacional, mas à jornada mundial por um planeta mais limpo, e demanda uma adequação cada vez mais rígida aos modelos de gestão mais modernos e profissionais.

Brasil: gestão tradicional dá lugar à mais moderna e profissional

No Brasil, a maior parte das empresas do setor sucroalcooleiro tem sido, historicamente, gerida por famílias. É justo salientar que muitas delas mostraram competência indiscutível para dirigir suas companhias, mas a realidade do setor vem exigindo mudanças.

Consultor da Dextron Consulting, e com ampla experiência em gestão no setor sucroalcooleiro, Celso Ienaga acredita que esse processo, de “transformação das famílias controladoras de negócios” em “famílias empresárias”, é um dos grandes desafios do momento. “Este processo passa fundamentalmente por uma evolução dos grupos familiares de uma postura de “dono” para “acionista”. A comprovação deste amadurecimento da postura familiar está em atos e decisões como a formalização de um acordo societário entre os núcleos familiares, a definição de uma estruturação societária e de capital clara e o estabelecimento de um processo sucessório dentro do bloco controlador, entre outros”.

 

Mas Ienaga lembra que há outros degraus na escada para a gestão mais eficiente possível. “Outro desafio importante é o estabelecimento de um modelo de governança corporativa alinhado com um modelo de gestão eficiente, que juntos irão permitir que uma gestão profissionalizada do negócio sucroalcooleiro possa maximizar a geração de valor para os acionistas e implementar uma cultura orientada para

desempenho dentro da organização. Finalmente, o último desafio está associado ao estabelecimento de uma estratégia de crescimento sustentável do negócio em longo prazo, que permita às empresas gerarem valor econômico e ao mesmo tempo atrair novos investimentos e investidores para suportar tal crescimento”.

Outro profissional que há anos acompanha o desempenho das empresas do setor sucroalcooleiro, Vladimir Moreto, também destaca a atual fase de transição de gestões familiares para modelos mais modernos. Ele acredita que “cada estilo tem a sua peculiaridade”, mas que “nas gestões familiares, há alguns anos, manter o negócio nas mãos da família era certeza de eternizar o status quo para as futuras gerações. Nos dias de hoje não é exatamente assim, pois a evolução e a velocidade da economia global, nem sempre são acompanhadas por este estilo de gestão, muitas vezes em razão das disputas internas de poder”.

Moreto ressalta que o pragmatismo de uma gestão mais profissional pode, em alguns momentos, passar a impressão de que a empresa “não se preocupa com as pessoas” devido a busca de resultados “a todo instante”. Mas ele avalia que “ao longo do tempo, com os resultados apresentados, sem dúvida o crescimento pessoal e profissional é maior e mais rápido que na gestão familiar”.

 

Mas existiria no mundo, hoje, uma empresa que poderia servir para o Brasil como um exemplo indiscutível de gestão em biocombustíveis? Para Celso Ienaga, não. O consultor explica que o “boom” do setor é recente e que, por isso, as companhias ao redor do mundo ainda estão desenvolvendo as práticas de gestão mais adequadas. “Acredito, porém, que o processo de abertura de capital, ou mesmo de entrada de sócios

investidores profissionais nas empresas do setor, deve acelerar este processo de implementação de práticas de gestão modernas. Seria, portanto, interessante monitorar as empresas do setor aqui no Brasil e no exterior que têm dentro da sua composição acionária, e de conselho de administração, investidores profissionais que sejam realmente atuantes e ativistas”.

Planejar é necessário
O aumento da demanda por biocombustíveis, e a chegada de novas empresas ao ramo, principalmente as de regiões até então periféricas no mercado global do produto, vai exigir das companhias brasileiras, ou que atuam no Brasil, um planejamento cada vez mais profissional e, principalmente, dotado de uma visão de longo prazo. É preciso cautela, e não se deixar iludir pelo momento de grande visibilidade e crescimento pelo qual passa o setor.

Como lembra Dimas Facioli, da Facioli Consultoria, “Existiam alternativas há três ou quatro anos que foram ignoradas em função da euforia geral, como é comum no agronegócio quando se ganha um pouco mais. Os empresários poderiam ter identificando novos mercados, com uma política bem definida de expansão de plantio, de investimentos em equipamentos e instalações, de custos, de estocagem, de análises do mercado futuro, o que possibilitaria aos empresários crescer à parte de qualquer política do governo. O empresário necessita munir-se de ações de planejamento de longo prazo, controle de custos, avaliação e conquista de mercados, enfim, criar um ferramental estratégico que lhe possibilite crescer e aumentar rentabilidade, solidificar seu negócio sem necessidade de ajuda”.

 

Membro da Comissão de Minas e Energia da Câmara dos Deputados, o deputado Arnaldo Jardim (PPS-SP), também ressalva a importância de um planejamento mais sólido e abrangente para o futuro do biocombustível no Brasil. “O lançamento do contrato de álcool para exportação na BM&F reforça a necessidade de planejar o quanto de cana será destinada para produção de etanol e de açúcar, por meio de contratos

de longo prazo; definir os volumes destinados ao mercado interno e externo; estabelecer responsabilidades quanto a logística e a armazenagem; difundir o uso dos combustíveis renováveis em todo o país; equacionar as grandes flutuações de preços; além de estabelecer normas ambientais e trabalhistas na produção de açúcar e etanol.

A simples expectativa de aumento do consumo de etanol nos EUA, Europa e Japão serve de estímulo para fazermos a lição de casa de planejar com eficiência e comercializar com agressividade.”

 
 
 

The Brazilian biofuel future in the hands of the business community
The sector diversification, complexity and importance increase require the more focused and enlarged practices by companies’ governance.

Brazil has taken the lead in the biofuel production and development in the world. If the sugar and alcohol sector moment is good and has favorable scenery for the next years, its company’s capacity in manage the business will be important in order to maintain the Country in the non-pollutant fuels avant guard.

Following the other companies’ scientific and technological development worldwide is beneficial to the domestic economy as well as to the world journey to a cleaner planet, and it demands the strictest adequacy to the modern and profession management models.

Brazil: Traditional management gives room to the more modern and professional one In Brazil, most companies in the sugar and alcohol sector are managed historically by families. It shall be pointed out that several have shown the unquestionable competence to manage their companies although the sector reality is requiring changes.

Dextron Consulting Advisor, having a wide experience in the sugar and alcohol sector management, Celso Ienaga, thinks this process of “transforming the families controlling the business” in “manager families” is among the great challenges now. “Such process is undergoing basically an evolution of the family groups from the “owner” position to the “stockholder”. This evidence of such improvement of the family viewpoint is in the acts and decisions, such as the formalization of a corporate agreement between the family members and the definition of the company and capital clear organization as well as the establishment of a succession process within the controlling block, among others.”

Moreover, Ienaga reminds there are other steps in the stairway for the most efficient management. “Other important challenge is establishing the corporate governance model aligned with the efficient management model, which will allow the professional management of the sugar and alcohol business to maximize the value generation to the stockholders and to implement the culture directed to the performance in the organization. Finally, the last challenge is connected to the establishment of a business sustainable growth strategy in the long term allowing the generation of economic value by the companies while they attract new investments and investors to support such growth”.

Another professional who has followed the development of the sugar and alcohol sector companies, Vladimir Moreto, also points out the current transition phase of the family management to more modern models. He thinks “each style has its particularity”, although, “in respect of the family management, the maintenance of the business in the family hands, some years ago, was the assurance of making the status quo eternal for the future generations. Nowadays, however, it is not exactly as such, as the global economy development and its speed are not always followed by such management style, mainly in view of the internal disputes for power”.

Moreto points out that the pragmatism of a more professional issue in some moments could give the impression the company “is no longer concerned with people” due to its “constant” search for results. Moreover, he evaluates that “during time, with the presented results, the personal and professional development, doubtless, is higher and faster than the family management”.

Is there nowadays in the world a company that could be an unquestionable example of biofuels management to Brazil? Celso Ienaga does not think so. The advisor explains the sector “boom” is recent and therefore the companies worldwide are still developing the proper management practices. “I think, however, the going public process or the admission of the professional investors’ partners in the sector companies shall accelerate such process to implement the modern management practices. Therefore, it could be interesting to monitor the sector companies here in Brazil and abroad, which have the professional investors acting and active in their share control and the board of directors.”

Planning is necessary
The demand increase by biofuels and the arrival of new companies in the sector, especially in the regions peripheral to the product global market then, will require a more and more professional planning from the Brazilian companies or those acting in Brazil, especially in respect to the long term view. Caution is necessary as well as to avoid being eluded by the great visibility and growth moment the sector is undergoing.

As remind us Dimas Facioli, of Facioli Consultoria, “There were alternatives three or four years ago which were ignored as a result of the general euphoria; as usual in the agribusiness when the gain is slightly higher. The entrepreneurs could have identified the new markets with a well-defined policy of plantation enlargement, investment in equipments and facilities, costs, storage, analysis of the future market, what would enable the growth of the entrepreneurs regardless any government policy. The entrepreneur shall provide himself with long term planning actions, costs control, evaluation and market conquer in order to create a strategic tool to enable him to grow and increase the profitability as well as consolidate his business with no help”.

Member of the Mines and Energy Committee of the Chamber of Deputies, Congressman Arnaldo Jardim (PPS-SP) also points out the importance of a more solid and wide planning for the biofuel future in Brazil. “Launching the alcohol agreement for exports in BM&F [Future and Commodities Exchange] strengthen the need of planning the sugar cane quantities destined to the ethanol and sugar production by means of long term agreements; defining the volumes intended to the domestic and external market; establishing the responsibilities in respect to the logistics and storage; disseminating the use of renewable fuels all over the country; questioning the great fluctuation on prices; in addition to establishing the environmental and labor rules for the sugar and ethanol production. The simple expectancy of the ethanol consumption increase in USA, Europe and Japan is a stimulus for us to do our homework in planning efficiently and commercialize aggressively.”