Sem-terra são os europeus

Essa fúria esconde muita loucura. Essa loucura exibe muita cobiça. De repente, o Primeiro Mundo descobre que aquela terra de samba, futebol e belas mulheres é rica, ameaçadoramente rica, sua capital não é Buenos Aires e além de Rio de Janeiro e Copacabana, há lugares lucrativos, como Sertãozinho e Araçatuba (de difícil pronúncia para eles), cana, açúcar, álcool, bioetanol, bicombustíveis e carros “flex” (flex é mais familiar para eles). Aliás, espantam-se (eu vi) ao saber que este é o único lugar onde o motorista pode escolher o combustível que quiser para seu carro – graças a um pé de cana, nenhuma guerra e é renovável. “A inveja é...” como escrevem em pára-choques de caminhões que cruzam esta terra movidos (ainda) a diesel.

Recentemente, desafiado a apontar a maior conquista tecnológica do homem, o filósofo Umberto Eco, do mesmo Primeiro Mundo, reconheceu: nada de televisão, Internet, naves espaciais, automóveis, antibióticos, eletricidade ou a máquina a vapor. É a agricultura, porque alimenta o homem.

É aí que a coisa pega. Bem na Europa, de onde vêm a fúria, a cobiça, a loucura e – inconfessável – o medo da fome. O Velho Mundo, de civilizações quase milenares, sabe que produzir alimentos é a pedra de toque. Desde quando Plínio, o Velho, em suas caminhadas a serviço do Império Romano, observava que “já nascem pedras em nosso solo” – era a erosão devastando uma terra que produzia alimentos desde o período Caolítico, cinco mil anos antes. Ou desde quando Virgílio, em suas andanças pelas Geórgicas, tentava, lá na primeira década do primeiro século cristão, enxertar uma planta na outra, em busca de mais produtividade para videiras, oliveiras, macieiras... Poderia estar desenvolvendo os princípios da agricultura transgênica, na mesma região que hoje tanto a combatem.

Tempos em que Magon, senador cartaginês, fez um primoroso tratado de agricultura. Tão primoroso que Catão, ao mandar destruir Cartago, mandou também que não se esquecessem de salvar esse documento, enfim levado a Roma e transformado na base que revolucionou a agricultura européia até o século 19.

O outro saque, furioso e louco, atrás de comida, desencadeou-o Napoleão Bonaparte. No século 19. Apoderou-se das pesquiisas agropecuárias do árabe Ibn al Awan, consolidadas no ano de 1l00 da nossa era, em terras de Sevilha e Granada, adaptando-as ou aproveitando-as, para despojar de crendices e mistificações a produção de alimentos. É o primeiro tratado de agronomia conhecido. (O cientista brasileiro formado na França Evaristo Miranda, autor desta aula, tem um exemplar).

Há mil anos, esse verdadeiro Atlas agrícola trata da fecundação artificial de árvores e animais; tipos distintos de águas para cada lavoura; como planejar, plantar, cultivar, colher, armazenar e consumir tudo o que a terra dá de comer. Ele inclui 18 receitas para colírio de cavalo, mas não foram elas que atraíram Napoleão. Foi a fome, mesmo. Cada francês que recebia do imperador implementos para colonizar a África levava um exemplar da “Awania”, como se chama a obra de Ibn al Awan.

Mas quase 200 anos depois de tanto conhecimento agrícola acumulado (e saqueado), a Europa ainda não aprendeu nem a adoçar seus alimentos de uma forma mais moderna e barata, do que usando a velha beterraba, difundida por Napoleão Bonaparte. Paga até quatro vezes mais, porém não aceita o açúcar de cana. Assim, não há indústria de alimentos que agüente: o jeito é lançar a moda “diet”, “light”, “zero”, como se naquele continente todos se contentem com o amargo sabor da vitória. Vá saber.
A fúria, a locura e a cobiça escondidas provam que a forma encontrada para combater o etanol é acusar a cana, coitada, de impedir, com sua “monocultura”, a produção de alimentos e derrubar as florestas. Talvez pensem que até hoje os brasileiros não conhecem o Brasil. É fácil derrubar suas acusações, todas infudadas, espantosamente infundadas porque vêm de povos ditos inteligentes, cultos e civilizados.

Que “monocultura” é essa que dá quase cem subprodutos? Que “monocultura” é essa que ocupa só 2% da área agrícola do Brasil? Então, consideram a viticultura, que toma 18% da agricultura da França, monocultura? Não sabem que a renovação dos canaviais impõe 20% de sua terra ocupada sempre com soja, amendoim ou qualquer legumionosa? Negligente é quem não faz.

Nova pressão já começou: são as exigências de certificações mil para “aprovar” o etanol. E que exigências eles fazem para usar derivados de petróleo: fóssil, cancerígeno, poluente e promotor de guerras?
Eles sabem que o solo europeu, quase exaurido, jamais suportaria lavouras de agroenergia e só agüenta culturas de ciclo curto ou pastos que sustentam a pecuária no máximo três meses. Condições terríveis para fazer sua comida, cada vez mais cara, vir de uma agicultura cada vez menos competitiva, sem falar na água boa, cada vez ‘mais ruim’, como diz nosso caboclo, cada vez mais sabido. Inventaram até que os canaviais invadem a floresta amazônica. Mas eles estão interessados na floresta ou no que sabem que existe embaixo dela?


MOACYR CASTRO
Jornalista
Jornalist

l Opinião l Opinion
Dimas Facioli
"Mentira, muitas vezes repetida, vira verdade"
"A Lie, continuously repeated, may be accepted as truth"
Moacyr Castro
"Sem-terra são os europeus"
"The LandLess Europeans"
Marcelo Junqueira
"Etanol, combustivel do futuro"
"Ethanol, the futures’ fuel"

 

 
 
 
 
 
 

Opinion

The LandLess Europeans

This current fury hides a great madness. This madness hides great greed. Suddenly the First World discovers that the Land of Samba, Soccer and Beautiful ladies is rich, dangerously rich, its capital is not Buenos Aires, and besides Copacabana and Rio de Janeiro, there are other profitable locations, such as Sertãozinho and Araçatuba (hard on the pronounce for them), sugar cane, ethanol, bio-ethanol, bi-fuels and flex cars (flex is easier to pronounce).

Recently challenged to indicate the most significant invention of mankind, philosopher Umberto Eco, from the same First World, recognized: no television, internet, spaceships, vehicles, antibiotics, electricity or flying machine. It’s agriculture, because it feeds us.
That’s where the center of the issue is. In Europe, from where the fury, the madness and the greed come from, also comes – the unconfessable – fear of the Hunger. The Old World, from millenary civilizations, knows that food production os the key of everything.

Since Plinio, the Old, who in his walks at the Roman Empire service, observed that “there are rocks growing in our soil” – it was erosion devastating a land which was producing since the Caolitic Era, five thousand years before. Or since Virgilio, in his walks in the Georgics, who tried in the first decades of the first Christian century, to insert a plant into another, searching for more productivity for vineyards, olive trees, apple trees.Times when Magon, a Cartago senator, elaborated a superb agricultural study,
So superb, that when Catão gave the order to destroy Cartago, also instructed his people to save that document. Bbrought to Rome it became the base of the Agricultural Revolution and transformed Europe in the 19th century. The other attack, furious and crazy, was performed by Napoleon Bonaparte in the 19th century as well. He took over the agricultural researches from the Arab Ibn al Awan, consolidated in the year 100, in lands of Sevilla and Granade, adapting them or using them to destroy myths about food. This is the first Agronomy Study known (Brazilian Scientist graduated in France, Evaristo Miranda, author of this class, has an edition with him).

A thousand years ago, this true agricultural Atlas talked about the artificial fecundation of the trees and animals; different types of water for each crop; how to plan, plant, cultivate, harvest, store and consume everything the soil can provide to feed us. He included 18 recipes for eye drops to be used in horses, but those weren’t the point of attraction for Napoleon. It was all about hunger. Each French citizen who would go to colonize Africa would receive from the Emperor implements and an edition of the “Awania”, as Awan’s work was named. But after almost 200 years of such agricultural accumulated knowledge, Europe has not even learned how to sweeten their food in a more modern and cheaper way than using beet, promoted by Bonaparte. They pay up to 4 times more, but do not accept the sugar from cane. There is no food industry which can take that – the way to go is to launch the diet, light, zero fashions, as if in that continent everybody is happy with the bitter flavor of victory. Go figure.

The hidden fury, the madness and the greed led the way to fight ethanol by accusing the poor sugarcane of being a “monoculture” and therefore, prevent the production of food and deforestation. Maybe they think Brazilians do not know their own country. It’s very easy to eliminate those accusations, all with no base whatsoever, because they come from so-called intelligent, cult and civilized people. Which “monoculture” is this which generates more than 100 byproducts? Which monoculture is this occupying only 2% of the arable land in Brazil? Then, by any chance, are the vineyards in France, which occupy 18% of France’s arable land considered “monoculture”? Don’t they know that the sugarcane renovation is mandatory and imposes 20% of the land renovation always with soy, peanut or any other legume? Neglecting is the one who doesn’t make things happen.

A new pressure has now begun: they are the demands of thousand of certifications in order to “approve”’ the ethanol.

They know that the European soil, almost totally exhausted. Would never take agro-energy crops and only can be used for short cycle cultures or pastures which supply the cattle for maximum 3 months. These are terrible conditions to cultivate their food, more expensive everyday, to come from a far from competitive agriculture, not to mention the water, worse and worse everyday.

Now they are creating false information such as the sugarcane plantations will invade the Amazon. But, are they interested in the forest or on what is beneath it?