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Antonio Carlos Zem
É apenas uma questão de tempo e de educação do consumidor por meio da informação correta, para que o etanol se torne uma commodity mundial e um sucesso como combustível alternativo ao petróleo, na avaliação de Antonio Carlos Zem, diretor-presidente da FMC na América Latina. Em entrevista à Altenergy Brasil, o executivo considerou “brilhante” a atuação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na defesa ao biocombustível brasileiro e afirmou ser preciso firmeza e uma exposição clara para expressar a posição brasileira, já que os críticos adotam uma postura contundente com absoluta desinformação.
À frente da pioneira iniciativa de unir Brasil e Estados Unidos, os dois maiores produtores de álcool do mundo, em um fórum de discussão e difusão da produção e uso do etanol - batizado de Bioenergy Alliance - Zem considerou “frustrante” a manutenção da tarifa norte-americana sobre o álcool brasileiro até 2011. Segundo ele, mais do que aumentar o comércio para o nosso combustível, a queda dessa barreira comercial iria incentivar o uso do etanol em estados como Flórida e Califórnia que enfrentam barreiras logísticas por estarem distantes da região produtora no meio-oeste, e, onde o biocombustível é mais difundido.
Altenergy - Como surgiu a iniciativa da FMC de criar a Bioenergy Alliance e unir Brasil e Estados Unidos, os dois maiores produtores de etanol do mundo para um fórum sobre o setor?
Antonio Carlos Zem - Jamais resistimos a uma boa idéia de nossos clientes e o programa surgiu então do objetivo de envolver os dois maiores produtores e líderes tecnológicos do setor no mundo: Brasil e Estados Unidos, que respondem por 85% da produção global de etanol. Por isso, durante os sete dias em que a comitiva esteve em trânsito pelas Américas, tratou não apenas a questão de oportunidades de investimento e comércio entre os dois líderes em etanol, mas também das possibilidades de expansão de negócios do setor sucroalcooleiro para o México e os demais países da América Central, em um fórum de troca de experiências e debate sobre as barreiras mercadológicas e sobre quais ações proativas podemos tomar em conjunto para transformar o etanol em uma commodity global.
Quais os próximos passos e qual o futuro da Bioenergy Alliance?
Outros encontros já foram realizados depois da Bioenergy Alliance. Um deles aconteceu no dia 19 de maio, em São Paulo, e reuniu importantes empresários do setor, bem como o ex-ministro Roberto Rodrigues e a comitiva do senador Jeb Bush. Esses encontros visam a troca constante de informações e as últimas novidades do setor. Reforçar o “network” e concretizar em ações o que tem sido discutido
O senhor concorda com a afirmação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no Fórum da FAO, na Itália, que os críticos do etanol têm as mãos sujas de óleo e de carvão?
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Inteiramente e acho que nosso presidente tem sido brilhante. Há muita desinformação e interesses outros que visam enfraquecer esse interesse legítimo. O etanol terá todo sucesso e é apenas questão de tempo e estarmos articulados.
Essa afirmação pode prejudicar as futuras negociações do Brasil para a comercialização do combustível?
Não, não creio. É preciso ser firme e claramente expressar a posição brasileira, pois nossos críticos o fazem de maneira contundente e o pior de tudo com absoluta desinformação. O lado econômico, através de um preço do petróleo acima de US$ 135,00 o barril, já começa a falar mais alto e serve para quebrar as mais arraigadas resistências.
Como o senhor avalia a política de uso obrigatório de etanol nos Estados Unidos?
Muito positiva, tanto para o Brasil que vê nesta política oportunidades de expansão do setor, como para o mundo, que ganha com a diminuição da poluição do planeta. Veja, com a adesão dos Estados Unidos ao etanol, especialistas já afirmam que toda a frota de automóveis será renovada e pode chegar a 1 bilhão de veículos em todo o planeta. Há que se reconhecer a mudança que a iniciativa de George W. Bush criou em todo o planeta, pois à medida que os Estados Unidos começaram seus programas, houve um interesse mundial sem precedente sobre o etanol. Cabe-nos agora negociar continuamente a redução das barreiras tarifárias e, gradualmente, ganhar fatia do mercado americano.
E como avalia a falta de uma política sustentada, com metas de consumo e produção para o Brasil?
É claro que uma política e metas nos traria um razoável conforto, planejamento e segurança para os investimentos. No entanto, no presente, precisamos nos guiar pelas leis de mercado e a elas responder com competência e olho nos custos.
Foi frustrante a recente prorrogação das tarifas sobre o etanol brasileiro nos Estados Unidos?
Certamente. Em um momento que se debate a escassez de alimentos em uma crise de demanda e em parte atribuí-se a isso o desvio de grandes volumes de milho para produção do etanol nos Estados Unidos, o Brasil com seu biocombustível oriundo da cana-de-açúcar oferece a grande oportunidade de corrigir em parte esse desvio que tem como grande causador o exacerbado preço do petróleo.
Como o senhor avalia as notícias recentes de uma maior oferta que a procura nos EUA do etanol e de uma queda de preços lá?
A mudança de paradigma energético é paulatina e não podemos esperar efeitos imediatos em uma situação tão complexa. Os produtores americanos investiram pesadamente face as oportunidades e aos incentivos, mas, ao mesmo tempo, os Estados Unidos não adaptaram a frota, não educaram os consumidores que já detêm veículos flex e nem sequer sabem. A logística de distribuição está emperrada. Portanto, houve resposta em produção, mas a demanda cresce a um ritmo muito inferior. Ademais, tirar o etanol do meio-oeste americano e colocá-lo nos principais estados consumidores, tais como Califórnia e Flórida, é inviável economicamente e seriam duas portas de acesso ideais ao Brasil caso as barreiras tarifárias fossem amenizadas.
Diante deste cenário, a proposta de Roberto Gianetti da Fonseca, diretor de Relações Internacionais e Comércio Exterior da Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp), de uma união entre produtores de etanol de Brasil e Estados Unidos para abastecer aquele mercado ainda faz sentido?
Todo o esforço em acessar o mercado é bem-vindo. Com o diálogo contínuo, debate e persistência é que conseguiremos quebrar a resistência.
Além de Estados Unidos e Brasil, quais, na opinião da FMC, seriam potenciais produtores de etanol em grande escala no mundo?
Países com grandes áreas agricultáveis que têm como condição receber uma ajuda tecnológica de países como os Estados Unidos e Brasil. O presidente Lula inaugurou uma sede da Embrapa em Gana e está sinalizando uma possível ajuda tecnológica e operacional para os países africanos começarem a produzir etanol. Para que o etanol possa ser uma commodity global, necessitamos ter outros países consumindo e produzindo. Não podemos nos esquecer que há outros países onde haverá um crescimento da produção do etanol.
Como o senhor avaliou a polêmica do uso de alimentos, em um cenário de oferta restrita de grãos, para a produção de etanol?
A origem da escassez de alimentos decorre de outros fatores, tais como o crescente custo do diesel, fertilizantes, intempéries climáticas e também por um crescimento de consumo, pois há uma migração de classes sociais na China, Índia, Rússia e Brasil que está provocando mudanças nos hábitos alimentares. Com melhor renda, cerca de 170 milhões de pessoas estão comendo mais e melhor. Novamente o Brasil, com sua enorme potencialidade, pode contribuir simultaneamente com alimentos e bioenergia.
E as polêmicas sobre o avanço da cana-de-açúcar sobre áreas de floresta que estaria empurrando grãos e pecuária, rumo à Amazônia?
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Os dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), recentemente publicados, atestam claramente que o avanço da cana sobre área de grãos é mínimo. Temos terras de pastagens subutilizadas, ou que estão sendo liberadas por uma crescente tecnificação da condução dos rebanhos bovinos que permitem expansão sem agredir a Amazônia, que por sinal é inadequada ao cultivo da cana-de-açúcar. Por outro lado, precisamos olhar a Amazônia com responsabilidade social e ambiental e preservá-la do uso indevido e ilegal, mas com absoluta soberania nacional.
Como o mercado de defensivos avalia a crise pontual do setor sucroalcooleiro no Brasil? Haverá impacto no faturamento de quanto?
Nosso mercado sofre com a redução da euforia do setor. Deverá crescer a um ritmo menor que 2007, entre 12% e 15%. Creio que em longo prazo é um mercado em que vale a pena investir, não só em produtos, mas em serviços, e cabe às empresas arregaçar as mangas e participar junto com o setor na expansão do mercado global como fizemos recentemente com a iniciativa Bioenergy Alliance.
Como o produtor pode se proteger em relação às altas dos insumos, apontadas como um dos fatores da disparada nos preços dos alimentos?
A pressão de custos e demanda global acelerada não deixa alternativa a nossa indústria que não seja o aumento de preços. O produtor que tem boa situação de crédito e compra antecipado tende a ter melhores condições, mas todos nós da cadeia precisamos revisar e cortar custos e repor margens. Há uma escalada de custos sem precedentes e o repasse desses é inevitável.
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Interview - Antonio Carlos Zem
It’s just a matter of time and the education of the consumers with correct information, for the ethanol to become a world commodity and a success as an alternative fuel to oil, in the analysis of Antonio Carlos Zem, CEO of FMC for Latin America.
Leading the pioneer initiative to unite Brazil and the US, the two largest ethanol producers in the world, in a forum to discuss and to disseminate information about the production and use of ethanol – named Bioenergy Alliance – Zem considered “frustrating” the maintenance of the US tariff on the Brazilian ethanol until 2011. According to him, more than increasing the trading for our fuel, the elimination of such tariff would encourage the ethanol use in states as Florida and California which face logistics obstacles as they are distant from the producing region, the mid-west, where biofuels are more known and used.
How did FMC have the initiative to create the Bioenergy Alliance and bring Brazil and the US together in a forum about the sector?
We couldn’t ignore a good idea of our customers and the program started from the main goal, which was to involve the two largest ethanol producers and technological leaders in the world: Brazil and the USA, who respond for 85% of the global production. Therefore, for seven days the group was traveling all over the Americas, to deal not only with the investment opportunities and trade between the two leaders but with also the possibilities of expansion to Mexico and other Centro-American countries, exchanging experiences and debating about market barriers, exploring the proactive actions we could take together in order to transform ethanol into a global commodity.
What about the next steps and the future of the Bioenergy Alliance?
Other meetings were held after the Bioenergy Alliance. One of them happened last May 19th in São Paulo and gathered important key players of the sector as well as former Minister of Agriculture Roberto Rodrigues and the Senator Jeb Bush is work group. These meetings aim the permanent exchange of information and the last news available. They also strengthen the networking and help to concretize the actions under discussion.
Do you agree with President Lula’s statement in FAO Forum in Italy, that the critics of the ethanol have their hands dirty with oil and carbon?
Entirely, and I think our President has been brilliant. There is a lot of misinformation and other interests which purpose is to weaken the legitimate ethanol’s position. Ethanol will be a success – it’s just a matter of time and the right articulation on our side.
Can his statement harm Brazil’s future negotiations for the biofuels commercialization?
No, I don’t think so. We need to be firm and clearly express the Brazilian position, because our critics do so in a very aggressive way and worst of all – with total lack of information. The economic side, through a US$ 135 the barrel, started to scream loud and clear and helps breaking resistances.
What is your analysis of the mandatory ethanol use policy in the US?
Very positive, both for Brazil with expansion opportunities and for the world which benefits from less pollution. You see, with the US adhering to the ethanol use, experts already stated that the whole fleet will be renovated and can reach 1 billion vehicles all over the planet. We have to recognize that George W. Bush’s initiative generated a strong interest in the planet about the ethanol use. It will be up to us to negotiate the reduction of tariffs and gradually, gain market share in the US.
And what about the lack of a sustainable policy, with consumption goals and production for Brazil?
It’s obvious that a policy and goals established would bring us a reasonable level of comfort, planning and safety for investments. However, currently we need to guide ourselves by the market rules and respond to them with competence and an eye on costs.
Was it frustrating to see the US tariffs being postponed?
Certainly. In a moment where the world is discussing the food crisis and this is being partially attributed to the corn volumes being directed to ethanol in the US, Brazil and the sugarcane ethanol offer a great opportunity to partially correct that distortion, which has in the oil high prices their major troublemaker.
What’s your analysis about the recent news on higher offer and lower demand for ethanol in the US and a price fall there?
The change in the energy paradigm is gradual and we cannot expect immediate effects in such a complex situation. The American producers invested heavily due to the opportunities and the incentives, but at the same time, the American fleet is still not adapted, they haven’t educated their consumers who already have flex-fuel cars and don’t even know it. The logistics in distributions is stalled. Therefore there was a response in the production, but the demand grows at a slower pace. Besides, taking ethanol from the mid-west to place it in the main consumer states, such as California and Florida is not economically viable and those would be two ideal doors for Brazil, should the tariff be reduced.
Considering this scenario, Roberto Gianetti da Fonseca’s (FIESP Director) proposal of a Union between the Brazilian and American producers to supply that market still makes sense?
All the efforts in order to gain access to the market are welcome. With continuous dialogue, debate and persistence we will manage to break the resistances.
Besides the US and Brazil, in FMC’s view which would be the large scale potential producers worldwide?
Those countries with large arable areas and conditions to welcome technology assistance from countries such as Brazil and the US. President Lula inaugurated an Embrapa’s office in Ghana and is signalizing a possible technological and operational help for the African countries to start producing ethanol. For the ethanol to become a global commodity, we need to have other countries consuming and producing it. We cannot forget that there are other countries where there will be an increase in the ethanol production.
How did you see the controversy about the food use for the ethanol production, in a scenario of restricted offer of grains?
The food crisis is due to several other factors, such as the diesel cost increase, fertilizers, climate changes and also an increase in the consumption, as there is migration of social classes in China India, Russia and Brazil which is generating a food intake change. With better income, around 170 million people are eating more and better. Again, Brazil with its huge potential, can contribute with both, food and bioenergy.
And the controversy about the sugarcane expansion in forest areas which would be allegedly pushing other cultures and cattle to the Amazon?
The data from the National Supplying Agency (Conab) recently published, clearly demonstrated that the cane expansion over the grain area is minimal. We have pasture land which are sub-utilized or being made available due to the growing technology allowing better management of the animals, and the expansion can be conducted with no harm to the Amazon, that by the way, is not adequate for the sugarcane cultivation. On the other hand, we need to look at the Amazon with social and environmental responsibility, preserving it from the inadequate and illegal use, but within absolute national sovereignty.
How does the agrochemical market see the current sugarcane crisis in Brazil? Will there be an impact?
Our market is suffering with the “euphoria” decrease in the sector. It should grow at a slower pace than in 2007, between 12% and 15%. I believe that it’s a good investment in long-term, not only in products but in services as well and it’s up to the companies to get ready and start working with the sector preparing the global expansion, as we did with the Bioenergy Alliance initiative.
How can the producers protect themselves from the high input prices, indicated as one of the factors for the increase of the food prices?
The pressure of the costs and the global demand leaves us no alternative than the price increase. The producer with good credit situation who buys in advance tends to profit from better market conditions, but we all need to review and cut costs in order to regain margin. There is an unprecedented price escalation and the consequent price increase is inevitable.
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