José Luiz Olivério
José Luiz Olivério

Dos 66 anos, muito bem vividos, como ele mesmo define, o vice-presidente de Tecnologia e Desenvolvimento da Dedini, José Luiz Olivério, já dedica 32 ao setor sucroalcooleiro. Antes da Dedini, marca de uma empresa que carrega o status de ser um dos mais importantes fabricantes de bens de capital do Brasil e líder mundial no mercado sucroalcooleiro, Olivério já havia emprestado seu talento para grupos como Vigorelli do Brasil, Villares e Metal Leve. Engenheiro mecânico de produção, formado pela Politécnica da USP, durante cerca de 20 anos, conseguiu manter paralelamente a atividade acadêmica dando aulas na FEI (Faculdade Engenharia Industrial) de São Bernardo e nos cursos de extensão universitária nas escolas de Engenharia Mauá. Mas não se distanciou muito da arte de passar seus conhecimentos. Requisitado, Olivério ministra cerca de 50 palestras por ano. Nessa entrevista para a Altenergy, ele fala sobre as perspectivas de um setor que ele conhece como poucos.

Falando um pouco da Dedini, o senhor poderia citar algumas tecnologias já desenvolvidas pela empresa e que foram mais utilizadas pelo setor sucroalcooleiro?
A Dedini sempre esteve atuando no setor e sempre procurou lançar novos produtos. Já estamos numa oitava geração de tecnologia. No mínimo, em cada década, era feita uma valorização, melhoria ou substituição de linha de produto. Como os mais antigos acabaram sendo substituídos pelos atuais, vamos falar dos mais recentes. Em termos de produtos, as moendas MCD, do início desta década, são líderes de mercado. São extremamente bem utilizadas e têm desempenho incomparável em termos mundiais, isso em capacidade e extração. Temos também o difusor modular Dedini /Bosch. Esse difusor tem capacidade de expansão. Os anteriores não tinham. É um difusor sem corrente e não precisa de um grande eixo, como utilizado no difusor tradicional. Esse produto virou líder absoluto de mercado. Tem quase 90% de market share. Foi lançado em julho de 2007. Na área de tratamento do caldo e evaporação, temos os evaporadores de tubos longos que permitem maior eficiência energética. Na parte de açúcar podemos destacar DRD (Dedini Refinado Direto), um processo de fazer açúcar refinado sem refinaria. O refinado é feito diretamente na Usina com uma única cristalização. Antes era preciso fazer o açúcar bruto, mandar para uma refinaria, onde é dissolvido e de novo purificado e concentrado até atingir a qualidade do refinado. Enquanto que com o DRD, consegue-se o refinado diretamente do caldo da cana. Há uma economia de energia, investimentos e aumenta-se o valor do produto da usina. Na parte de etanol, estamos com uma unidade de demonstração que terá um impacto revolucionário no setor. Essa unidade está na usina Bonfim. Estamos reconceituando todo o sistema de fermentação, num processo mais avançado de bioreatores ou fermentadores, utilizando conhecimento que adquirimos na área de cervejaria, além de materiais mais nobres nos fermentadores, ou seja, aço inox no lugar de aço carbono. Isso, inclusive, favorece a assepsia do produto. Também estamos controlando a temperatura dos fermentadores, utilizando um Chiller de absorção. Com isso aumentamos o rendimento da fermentação, e ao mesmo tempo, garantimos uma fermentação com maiores teores alcoólicos. Dessa forma, reduzimos o volume de vinhaça por litro de álcool produzido. Isso terá um impacto muito grande no setor. Já está operando e pretendemos demonstrar essa tecnologia até o fim da safra para obter parâmetros de desempenho da realidade industrial e não de pequena escala. Estamos com uma unidade de demonstração na Costa Pinto para fazer destilação e desidratação do etanol usando a tecnologia de membranas. Foi feita uma parceria com a Vaperma, empresa canadense, especializada em membranas.

Pela primeira vez no mundo, essa tecnologia está sendo aplicada no setor canavieiro. Com uma membrana, a Dedini desenvolve instalações para produzir o etanol com menos consumo de energia. Se o consumo de energia é menor, conseqüentemente sobra mais para vender à rede. Na área de energia também já temos uma solução extremamente eficaz em termos de caldeira. As caldeiras que predominavam até recentemente, tinham uma pressão na ordem de 60 quilos por centímetro quadrado. Acabamos de assinar um contrato com o grupo Cosan, de sete caldeiras de 100 quilos por centímetro quadrado. Foi o maior contrato de caldeiras assinado no Brasil em todos os tempos no setor canavieiro.

Com toda essa explanação do senhor, por que ainda se fala que o Brasil não é um país com tecnologia avançada?
Não é verdade. Acontece que as usinas têm diferentes níveis de tecnologia instalados. Algumas têm equipamentos de alta tecnologia. Outras são muito antigas, não se renovaram. As usinas de ponta do Brasil têm os melhores desempenhos mesmo quando comparadas com as de qualquer outro país.

Quais são os principais desafios de uma empresa do porte da Dedini por estar instalada no Brasil?
Em termos de Brasil, há uma vantagem enorme porque aqui está o maior mercado mundial de cana. Só isso já possibilita uma grande vantagem a uma empresa como a Dedini. Por razões históricas, somos líderes de mercado. Nosso maior desafio é manter a liderança desse mercado e ao mesmo tempo estender a liderança no mercado mundial. A Dedini é a única empresa que fornece uma usina inteira com sua própria linha de produtos. Nesse aspecto não tem concorrentes. Os nossos concorrentes atuam nos setores da usina. Quem faz caldeira não faz moenda. Quem faz moenda não faz difusor.....a Dedini é a única que tem condições de fornecer uma usina inteira com a sua própria linha de produtos.

Existe alguma tecnologia que o senhor ainda quer ver implantada na Dedini?
Espero ver implantada tecnologia para a produção do etanol de segunda geração. Existem novas tecnologias de combustíveis líquidos. Dentro de uma ou duas décadas vamos estar na terceira geração de combustíveis líquidos, derivados da cana-de-açúcar. Na parte de bioletricidade o grande salto vai ser o uso da palha, mas em seguida outro grande salto será a gaseificação da biomassa e o uso combinado de ciclos a gás e ciclos a vapor na mesma usina, produzindo mais eletricidade. Vejo com muita clareza que isso vai acontecer e estamos trabalhando nessa direção. Temos também o conceito de integrar o biodiesel na usina de açúcar e etanol. A usina do futuro é a 3 bios: bioeletricidade, bioetanol e biodiesel. A Usina Barralcol, em Barra do Bugres, no Mato Grosso é a única 3 bios do mundo. Fornece bioeletricidade para a rede no Mato Grosso, faz bioetanol e tem uma unidade de biodiesel integrada na usina de açúcar e álcool. Esta é para nós a solução mais eficiente em termos ambientais, de sustentabilidade e energético.

Essa será a configuração da planta de uma usina no futuro?
A usina do futuro será 3 bios, com as evoluções que vão surgir daí, mas com altíssima sustentabilidade. Essa sustentabilidade levará a uma reformulação das soluções da usina.

 
 
 
 
 
 
Interview - José Luiz Olivério

From his 66 well-lived years, the Vice-President of Development and Technology from Dedini, José Luiz Olivério has already dedicated 32 years to the sugarcane sector. Before Dedini, one of the most important industry manufacturers in Brazil and worldwide leader in the sector, Olivério had already contributed with his talent to Groups such as Vigorelli do Brasil, Villares and Metal Leve. A Mechanic Production Engineer, graduated from Escola Politécnica – USP, managed to keep his teaching activities going, for more than 20 years at FEI (Industrial Engineering University) and in other extension courses at Mauá. He hasn’t got too far away from the art of sharing knowledge with others. Olivério is always invited to lectures, about 50 a year. In this interview for Altenergy, he talks about the perspectives of a sector which he deeply knows.

Talking about Dedini, could you mention some of the technologies developed by the Company and were more used by the sugarcane sector?
Dedini has always been working with the sector and we are always looking for launching new products. We are at our 8th generation in technology, and every decade there is some kind of innovation, improvement or replacement made in our product line. In terms of products the MCD crushers form the beginning of this decade, are market leaders. They are extremely well used and have incomparable performance in world terms, in extraction capacity. We also have the Dedini/Bosch Modular Diffusor with expansion capacity. The previous ones didn’t have that resource. It’s a different diffuser than the traditional equipments. Launched in July 2007, this product became an absolute market leader with 90% market share. In the area of juice extraction and evaporation, we have the long tube evaporators which allow higher energy effectiveness. In the sugar area, we highlight the DRD (Dedini Refined Direct), a process to get refined sugar without a refinery. Before, you needed to do gross sugar, send it to the refinery where it would be dissolved, purified again and concentrated until reaching refined quality. With the DRD, we can get the refined sugar directly from the cane juice. There are energy and investments savings and an increase in the product value at the mill. Regarding ethanol, we have a demo unit which will cause a revolution in the sector and it’s located at the Bonfim mill. We are re-designing the whole fermentation system, using a more advanced process with bioreactors or fementators, using all the knowledge we have with the beer industry, besides noble materials in the fermentators, meaning stainless steel instead of carbon steel, which allows a better asepsis of the product. We are also controlling the fermentantors’ temperature , using a absorption chiller. With that, we increase the fermentation outcome and at the same time, guarantee a fermentation with higher levels of alcohol. Therefore, we reduce the vinasse volume per lither of ethanol produced and this will have a great impact in the sector. It is already operating and we intend to demonstrate this technology until the end of this season in order to obtain the parameters for the performance of the industrial reality and not for small scale. We have a demo unit at Costa Pinto to perform distillation and dehydration of ethanol using a membrane technology. We closed a partnership with Vaperma, a Canadian company, specialized in membranes and for the first time ever this technology is being applied in the sugarcane sector. With one membrane, Dedini develops installations to produce ethanol with low energy consumption. If the consumption is lower, there is more to be sold to the power network.

In the power sector, we also have an extremely effective solution regarding the boilers. The boilers which were predominant until recently had a 60-kilo pressure per square centimeter. We have just signed a contract with the COSAN group of 7 boilers of 100 kilos per square centimeter. This was the biggest boiler contract signed in Brazil ever in the sugarcane sector.

With all this explanation, why is that Brazil is seen as a poor technology country?
That’s not true. The mills have different levels of technology installed, some have high tech equipments, others are older and have nor been renovated yet. The top mills in Brazil have the best performance when compared to those in any other country.

What are the main challenges for a company like Dedini because for ebing in Brazil?
In terms of Brazil, there is a huge advantage because here is the largest sugarcane market in the world. That fact alone is already a critical advantage for a company like Dedini. For historical reasons we are market leaders and our main challenge is to keep this leadership and at the same time extend it to the international market. Dedini is the only company which can supply an entire mill with its own product line and in that aspect, Dedini has no competition. Our competitors act in sectors of the mills, the one who makes boilers do not make diffusers….as I said, we are the only ones who can deliver an entire mill with our product line.

Is there any technology you would like to see implemented at Dedini?
I hope to see the technology for the second-generation ethanol. There are new technologies for liquid fuels and within two or three decades we will be at the third generation of liquid fuels, from the sugarcane. In terms of bioenergy, the great jump will be the use of the straw, but right after it another great jump will be the gasification of the biomass and the combined use of gas and steam cycles in the same mill, generating power. I can see that very clearly and we are already working in that direction. We also have the integration concept including biodiesel into the sugar and ethanol mill. The Mill of the Future is a 3-bio; bioenergy, bioethanol and biodiesel. The Barralcool mill in barra dos Bugres, Mato Gross, is the only 3-bio in the world – provides bioenergy for the Mato Gross network, produces bioethanol and has a biodiesel unti integrated to the mill. This is, for us, the most effective solution in terms of energy, environment, and sustainability.

Will the Mill of the Future use that configuration?
The mill of the Future will be 3-Bios, with the evolutions to come, but the highest level of sustainability. And this sustainability will take us to reformulate all the solutions for the mills.