O caminho das águas
Assim como a biodiversidade, a energia e as mudanças climáticas, a água é um tema que precisa estar cada vez mais presente nas preocupações de governos e sociedade

O Grupo de Trabalho (GT) da Bioenergia do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES) promoveu no final de maio, no Auditório do Banco do Brasil, em São Paulo, um colóquio com especialistas. Foram cerca de 90 participantes, entre conselheiros, palestrantes, técnicos do governo federal, pesquisadores, empresários, trabalhadores e representantes de ONGs. Entre os vários e relevantes temas em debate, um dos destaques foi A Competição pelo Uso da Água no Brasil, apresentado por José Machado, diretor-presidente da Agência Nacional de Águas (ANA).

Um dos mais importantes recursos ambientais, a água, lembrou Machado, ainda não está disponível para um grande contingente de pessoas mais vulneráveis em todo o planeta, gerando uma crise que segrega e condena seres humanos a um destino miserável. Segundo o relatório do PNUD (Política Nacional de Desenvolvimento Urbano) de 2006, a crise da água tem pouco a ver com a escassez de água, mas tudo a ver com as estruturas de poder, a pobreza e a desigualdade social. Um exemplo no Brasil é a Amazônia, onde a abundância de água natural não garante o acesso à água potável e ao saneamento a um percentual expressivo de pessoas, em especial os mais pobres. Mesmo no semi-árido nordestino é possível obter água adequada para atender ao consumo humano, mas há necessidade de políticas públicas de longo prazo para viabilizar a inserção social e o acesso ao produto com garantia para expressiva parcela da população brasileira.

Machado destacou que o Brasil tem posição privilegiada no mundo, em relação à disponibilidade de recursos hídricos. A vazão média anual dos rios em território brasileiro é de cerca de 180 mil metros cúbicos por segundo, o que corresponde a aproximadamente 13,8% de toda a água doce do mundo em seu território. A porção brasileira da bacia hidrográfica Amazônica possui 74% da disponibilidade de água do país e abriga a maior rede hidrográfica do planeta, e, no entanto, é habitada por menos de 5% da população do país. Num rápido passeio pelas regiões brasileiras, o diretor-presidente da ANA mostrou por meio de gráficos, que, por exemplo, na Região Norte com grandes volumes de água representando a mais extensa rede hidrográfica do globo terrestre - uma vazão média de longo período estimada em 133.861 m3/s (68% do total do país), com densidade populacional média de 2,13 hab/km2 e com potencial hidrelétrico de cerca de 111 GW, são explorados apenas cerca de 9%.

A água e a Cana

José Machado - Créditos Denise Caputo
Em relação ao setor sucroalcooleiro, Machado destacou que a expansão significativa de unidades ligadas ao segmento e a perspectiva de crescimento ainda maior para as atividades relacionadas à cadeia produtiva de etanol, a partir da cana-de-açúcar, com expressivas repercussões econômicas em algumas regiões do país, tem levado a ANA a refletir sobre a sua competência, como agência reguladora do uso do bem público – água – na formulação de medidas preventivas e pró-ativas que representem instrumentos de orientação para o planejamento de novos empreendimentos em que estejam conciliados os aspectos de economicidade e sustentabilidade hídrica.

Avaliações preliminares feitas pela ANA, confrontando a localização de usinas projetadas com a disponibilidade hídrica de alguns rios de domínio estadual, principalmente em afluentes de segunda e terceira ordens, especialmente na bacia do Paranaíba e do Tocantins, apontam condições de sustentabilidade próximas de estágio crítico, o que poderá resultar em comprometimento ambiental e operacional para determinados projetos. “Na usina, o consumo de água é mais significativo no uso para irrigação na produção das mudas (viveiros) e para irrigação suplementar na época de seca. Estudos demonstram ainda que estas usinas induzem o crescimento das áreas no seu entorno, aumentando com isso o consumo indireto de água nessas regiões”, sublinhou. “Desta forma, a ANA vem se articulando com o setor empresarial de agroenergia para que sejam obtidas, para cada projeto, as informações sobre as quais foi desenvolvido o seu planejamento, enfatizando os parâmetros relativos aos mananciais de onde haverá as captações de água”.

A cana-de-açúcar concentra-se na região centro-sul do Brasil, a qual, normalmente, não utiliza água para a irrigação dos canaviais. Complementarmente, o consumo de água na indústria da cana vem sendo reduzido nos últimos anos, devido a práticas de reuso, mudanças no sistema de lavagem da cana, reaproveitamento da água nos sistemas de resfriamento. Não se pode generalizar, insistiu Machado, a intensidade de uso da água na cultura de cana. Enquanto há empreendimentos no nordeste semi-árido com sistemas de irrigação operando o ano todo, no sudeste e no centro-oeste a irrigação só é praticamente usada intensivamente para viveiros de mudas e em caráter suplementar, em associação com a vinhaça, o que leva a não caracterizar o setor como grande usuário ao se cotejar o consumo de água por área plantada. No processo industrial tanto do açúcar como do etanol, o índice médio de captação de água é 1,83 m³ por tonelada de cana processada. Na região centro-sul, principal produtora e onde estão os focos de expansão, procedimentos gerenciais e tecnológicos têm baixado este índice, em algumas usinas, a quase 1 m³ por tonelada de cana processada.

Um dos mais importantes focos de atenção, enfatizou, recai na possível implantação de usinas em sub-bacias com baixa disponibilidade de água. “É fundamental que os órgãos outorgantes estaduais, a quem se subordina a grande maioria de rios que podem se caracterizar nessa situação, direcionem as suas atenções para esse aspecto. A disposição inadequada de efluentes, aspecto de intensa preocupação nos primeiros anos do PRÓ-ALCOOL, hoje é um fator de cada vez menor preocupação, face ao aproveitamento crescente e integral de todos os produtos e subprodutos gerados nos processos industriais”. Ainda com respeito ao setor sucroalcooleiro, segundo Machado, é fundamental que haja articulação entre a ANA e todos os componentes do SINGREH. Essa sintonia será um fator importante para que a expansão em curso ocorra de forma sustentada e traga reais benefícios para a sociedade, para o meio ambiente e para o país como um todo.
 
 
 
 
 
 

Green Line

Waterways
The environmental issues are the center of the society and government concerns: the water, as well as the biodiversity, energy and climate changes, are subjects which need to be present in the debates

The Bioenergy Working Group (GT) within the Advisory Board for the Economical and Social Development (CDES) promoted at the end of May a round table with experts. About 90 people attended the meeting among businessmen, researchers, workers, technicians and NGOs representatives. Many relevant subjects were discussed but one deserved special attention – the Competition for the Water in Brazil, presented by José Machado, Director-President of the National Waters Agency (ANA).

One of the most important environmental resources, the water, reminded Machado, is still not available for a huge number of most vulnerable people in the planet, generating a crisis which isolate and condemn human beings to a destiny of misery. According to the PNUD Report (National Policy of Urban Development) of 2006, the water crisis has less to do with the lack of water but everything to do with the power structures, poverty, and social unevenness. A good example is the Amazon, where the abundance of natural waters does not guarantee the access to potable water and to hygiene to an expressive number of people, especially the poorest. Even in the Northeast semi-arid it is possible to obtain adequate water for human consumption, but there is the need of long-term public policies to allow the social insertion and the guaranteed access to the resource for the expressive portion of the Brazilian population.

Machado highlighted that Brazil has a privileged position worldwide, regarding the availability of hydric resources. The annual capacity of the rivers within the Brazilian territory is about 180 thousand cubic meters per second, which is equivalent to approximately 13,8% of all the sweet water available in its territory. The Brazilian portion of the Amazon hydrographic region has 74% of the water availability in the country and only 5% of the population. In a quick view of the several Brazilian regions, the President of ANA showed in graphs that for instance, in the North with huge volumes of water representing the most extensive hydrographic net in the planet – a capacity of long period of about 133.861 cubic meters (68% of the total in the country), with population density of 2,13 inhabits/km2 and a hydro-electrical potential of 111 GW, only 9% are explored.

water and sugarcane

Regarding the sugarcane sector, Machado informed that the significant expansion of the producing units and the growth perspective even higher for the ethanol productive chain with expressive economic impact in some regions, have lead ANA to reflect about its competence, as regulatory agency of the public asset usage – water – by formulating preventive and pro-active measures which represent a guidance for the new units in order to conciliate the economic aspects and the hydric sustainability.

Preliminary studies performed by ANA, confronting the location of projected mills with the hydric availability in some rivers of state responsability, especially with effluents of second and third orders in the Paranaiba and Tocantins rivers, indicate sustainability conditions very close to the critical, which may result in environmental compromising for some of the projects. “In the mill, the water use is more significant for the plant irrigation as complement for irrigation in the dry season. Studies also demonstrate that the mills induce the growth in the areas around the unit increasing the indirect water consumption” emphasized.

“Therefore, ANA has been articulating with the agroenergy sector in order to obtain information about each project planning, stressing the parameters related to the water sources where the water will be captured.”

Sugarcane cultivation is concentrated in the Center-South of Brazil, which usually do not use water for irrigation. Additionally, the use of water in the cane industry has been reduced in the last years, to the re-usage, changes in the washing system, reusing the water in the cooling systems. “We cannot generalize the intensity of the use in the sugarcane cultivation” insisted Machado. While in the Northeast there are units with irrigation systems being use all year long, in the center-west and the southeast, water is used only for the start-up plants and in supplementing, associated with the vinasse, which does not turn the sector into a large user when considering the water consumption per planted area.

In the industrial process both for sugar and ethanol, the average water capture index is of 1.83 m3 per ton of processed cane. In the center-south region, major producer and where the expansion focus is, management procedures and technology have been reducing that number, in some mills, to almost 1 m3 per ton of processed cane.

One of the most important focuses is in the implementation of mills in areas with low water availability. “It’s critical for the State authorities, who hold responsibility for the majority of the rivers, to direct their attention to those aspects. The inadequate disposition of the effluents, subject of great concern in the early Proalcool, is not a concern any more, as the sector learned to take advantage of all the cane by-products in their own industrial processes.”

Still regarding the sugarcane sector, according to Machado, it’s essential that ANA and all the components of SINGREH are articulated. This alignment will be an important factor for the expansion to be performed in a sustainable manner and bring real benefits for the society, the environment and for the country as a whole.