O etanol como combustível universal

Estudo reafirma a preferência do brasileiro pelo combustível renovável e aponta queda acentuada na demanda pela gasolina

A conta é simples. Cada vez que se consome um litro de etanol, combustível renovável, que retém mais carbono do que emite, deixa-se de usar um litro de gasolina. “Mais que a troca, deixamos de tirar carbono do fundo do chão para jogá-lo na atmosfera. Isso é politicamente correto”, resume Ângelo Bressan Filho, técnico da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) e autor do estudo “O etanol como um novo combustível universal”, divulgado este mês. “O nome do trabalho remete ao papel que temos de fazer para abrir outros mercados. Um papel de diplomacia para universalizar o uso do etanol”, destacou Bressan, durante visita a Sertãozinho, onde apresentou o documento em evento da Conab, durante Feira Internacional da Indústria Sucroalcooleira.

O estudo inédito realizado pela Conab aponta que a lição de casa já foi feita e que crescerá cada vez mais a preferência do brasileiro pelo álcool. Os dados revelam que o Brasil deve aumentar 50,46% a demanda pelo combustível renovável da cana-de-açúcar entre 2007 e 2011, passando de 16,47 bilhões de litros para 24,78 bilhões de litros por ano. Mais do que o aumento da demanda do etanol, o estudo mostra que o consumo da gasolina cairá 9,64% entre o ano passado e 2011. De acordo com a Conab a demanda pela gasolina A (pura) sairá de 17,779 bilhões de litros para 16,065 bilhões ao ano.

SÉRIE DE EXPORTAÇÕES MENSAL DE ÁLCOOL ETÍLICO
MONTHLY SERIES OF ETHYL ALCOHOL


Já a gasolina C, com 25% de mistura de álcool anidro, terá um consumo anual de 24,025 bilhões de litros reduzido até 21,709 bilhões de litros no período. “Por ser uma avaliação matemática, esse estudo deve ser revisto daqui a seis meses, já que os próprios números de consumo no mercado interno apontam para um crescimento mais forte no consumo já em 2008”, avaliou Bressan sobre a disparada no crescimento do consumo de etanol no mercado interno, atualmente responsável pelo destino de 72% da produção nacional do combustível. Esse crescimento, segundo ele, ocorrerá na esteira do forte aumento da demanda pelo hidratado, o comercializado nos postos e utilizado no abastecimento de veículos a álcool ou nos flex fuel. Mas, como a demanda pela gasolina vai cair, conseqüentemente haverá uma redução na necessidade de utilização do álcool anidro na mistura, o único ponto negativo relacionado ao aumento do consumo do etanol.

Os dados apontam que a demanda pelo álcool hidratado irá aumentar de 10,227 bilhões de litros em 2007 para 19,142 bilhões de litros em 2011, ou 87,17% em quatro anos. Já o consumo de anidro segue o da gasolina e recuará 9,65% no mesmo período, de 6,247 bilhões de litros para 5,644 bilhões de litros. Ainda no período, a participação do álcool hidratado na demanda total de etanol deve saltar de 62,1%, no ano passado, para 77,2% em 2011. Em contrapartida, a fatia de álcool anidro na oferta deve cair de 37,9% em 2007 para 22,8%.

O estudo utilizou como base uma frota total de veículos a gasolina ou a álcool (Ciclo Otto) estimada em 22,571 milhões de unidades em 2007, com um crescimento anual previsto de 5% em 2008, de 3,8% em 2009 e de 3,7% em 2010 e 2011, até atingir 26,474 milhões de unidades. Deste total, a frota de veículos flex fuel deve saltar do correspondente a 20,5% em 2007 para 44,2% em 2011 e a dos movidos a gasolina recuará de 69,9% para 50,9%. Já a participação dos veículos exclusivamente a álcool, que não são mais fabricados, deve recuar 9,5% do total para 4,9% com o sucateamento da frota.

EXPORTAÇÕES DE ÁLCOOL
ALCOHOL EXPORT

“Para nós foi fácil calcular o crescimento do número de veículos novos, mas encontramos dificuldades para estimar o aumento da frota inteira, já que é muito difícil avaliar quantos veículos deixam de circular anualmente em decorrência do sucateamento da frota”, explicou o técnico da Conab.

O estudo estimou ainda que as exportações de álcool devam crescer em ritmo mais forte que o aumento da demanda no mercado interno, apesar de um volume menor. Pelos dados, até o final de 2008 serão enviados a outros países 4,176 bilhões de litros, ou 18,21% a mais que os 3,532 bilhões de litros de 2007. Já em 2011 as exportações devem chegar a 6,106 bilhões de litros, um aumento de 72,85% sobre o resultado do ano passado. Os Estados Unidos, que hoje respondem diretamente ou indiretamente por 59% do álcool importado pelo Brasil, seguirão como o principal mercado do País até 2011, demonstra o trabalho.
E mais, o mercado norte-americano deve importar 2,699 bilhões de litros em 2008, volume que saltará para 3,946 bilhões de litros em 2011. Os volumes são a soma do álcool que vai direto para os Estados Unidos com o que chega ao país por meio de países do Caribe. Já as vendas para os Países Baixos, porta de entrada para a Europa, devem aumentar de 977 milhões de litros em 2008 para 1,428 bilhão de litros em 2011.

Sobre a possibilidade de uma abertura ainda maior para o etanol brasileiro no mercado externo, Bressan é bem cauteloso, principalmente em relação ao mercado norte-americano, maior produtor e consumidor mundial com cerca de 30 bilhões de litros de etanol por ano. De acordo com ele, se houver um forte crescimento das vendas de etanol brasileiro aos Estados Unidos, os dois mercados correm o risco de entrar em colapso.

“Não queremos invadir o mercado norte-americano, porque o industrial americano é parceiro nosso na universalização do etanol. Se eles consolidarem o uso do etanol, ajudarão o álcool como idéia, mas quebrarmos o industrial lá com os preços baixos do álcool brasileiro, não vai ter mercado para nós”, resumiu. Por fim, o estudo da Conab sinaliza que para produzir o álcool necessário ao mercado interno e externo, será necessário aumento de 35,649 milhões de toneladas de cana-de-açúcar processadas pela indústria brasileira este ano e de, em média, 32 milhões de toneladas de cana de incremento anual até 2011. Já a área adicional de cana destinada ao álcool terá de crescer 380 mil hectares por ano, em média, no mesmo período. Com isso, a conta fecha. E a natureza agradece.

SÉRIE MENSAL DE PREÇO DE GASOLINA E ÁLCOOL
MONTHLY SERIES OF GAS AND ETHANOL PRICES


 
 
 
 
 
 
 

Market

The ethanol as a universal fuel
Study reinforces the Brazilian preference for the renewable fuel and indicates a significant drop in the gasoline demand

The math is simple. Every time we use one liter of ethanol, a renewable fuel which retains more carbon instead of releasing it, we are avoiding using one liter of gas. “More than just the change itself, we are not taking the carbon from the underground to throw it in the atmosphere. This is politically correct” states Angelo Bressan Filho, technician from CONAB, (National Supplying Company) and author of the paper “The ethanol as a new universal fuel”, released this month. “The name relates to the role we play in opening new markets. A diplomatic role in order to universalize the ethanol” highlighted Bressan, during his visit to Sertãozinho, where he presented his paper in a CONAB’s event at the Internatinal Fair for the Sugarcane Industry.

The study indicates that the homework has been done and the preference of the Brazilians for the ethanol should grow. The data show that Brazil should increase its demand for the sugarcane ethanol by 50,46% between 2007 and 2011, going from 26,47 to 24.78 billion liters per year. More than just the increase in the ethanol’s demand, the study also shows a decrease in the gasoline consumption by 9,64% from last year to 2011. According to CONAB, the demand for the A gasoline (pure) will drop from 17,779 to 16,065 billion liters a year.

The C Gasoline, with 25% of ethanol blend, will have an annual consumption of 24,025 billion liters reduced to 21,709 billion liters in the period. “As these estimations are based in math, this study should be reviewed in 6 months, as the consumption numbers in the domestic market already indicate a strong growth in 2008” evaluated Bressan about the domestic market currently responsible for the consumption of 72% of the total national production. This growth, according to him, will happen following the path of the strong demand for the hydrated ethanol, the one sold at the gas stations and used in the ethanol and flex-fuel cars. However, as the gasoline consumption will drop there will be also a drop in the need to blend the ethanol, which is the only negative point of the consumption growth.

The data indicate that the demand for the hydrated ethanol Will increase from 10,227 billion liters in 2007 to 19,142 in 2011 or the equivalent to 87,17% in four years. However, the anhydrous consumption will follow the gasoline’s and will drop 9.65% in the same period, from 6,247 to 5,644 billion liters. Still in the same period, the hydrated ethanol’s share in the total demand will jump from 62,1% to 77,2% in 2011. On the other side, the anhydrous’s share will drop 37,9% on 2007 to 22,8%.

The study was based in a total fleet of gasoline cars or ethanol-fueled (Otto Cycle) estimated in 22,571 million of units in 2007, with an expected annual growth of 5% in 2008, 3,8% in 2009 and 3,7% in 2010 and 2011, reaching 26,474 million units. From this total, the flex-fuel fleet should jump from 20,5% in 2007 to 44,2% in 2011 and the gas-fueled cars will drop from 69,9% to 50,9%. The cars exclusively fueled with ethanol, which are no longer manufactured, should be reduced from 9,5% to 4,9%, with the fleet depreciation.

“For us it was easy to calculate the growth of new cars, but it was very difficult to estimate the whole fleet performance, as it’s complicated to evaluate the number of vehicles which are out of circulation annually due to the fleet depreciation.”

The study also estimated that the ethanol exports should grow at a stronger pace IF compared to the domestic demand, despite the smaller volume. According to the data, until the end of 2008, 4,176 billion liters will be shipped to other countries or 18,21% more than the 3,532 billion liters of 2007. In 2011 the exports should reach 6,106 billion liters, an increase of 72,85% over last year’s results. The US, currently responsible for 59% of the ethanol imported from Brazil (directly or indirectly), will remain as the key market for Brazil until 2011.

And more, the American market should import 2,699 billion liters in 2008, a volume which is expected to jump to 3,946 in 2011. The volumes are the sum of the ethanol which goes directly to the US with the volume which reaches them through the Caribbean. The sales to the Netherlands, main door to Europe, should grow from 977 million liters in 2008 to 1,428 billion liters in 2011.

About the possibility of an even wider opening for the Brazilian ethanol in the external market, Bressan is very cautious, especially regarding the American market, the world’s largest producer and consumer with about 30 billion liters of ethanol a year. According to him, if there is a strong growth in the Brazilian ethanol sales to the US, both markets take the chance of a collapse.

‘We do not wish to invade the American market, because the American producers are our partners in the ethanol universalization. If they consolidate the use of ethanol, they will help us conceptually, but to break the local producer there, with low price ethanol does not generate any market for us”, summarized. As a conclusion, the study signalizes that, in order to meet the demand from both domestic and external markets, it will be necessary to increase production for about 35,649 million tons of processed sugarcane this year and an average of 32 million tons every year, until 2011. With that, the numbers “crunch” and Mother Nature smiles.