Maurilio Biagi Filho
Como 2 e 2 são 5

Ninguém é bonzinho nessa ‘guerra’. O petróleo importado custou ao Brasil quase US$ 12 bilhões no ano passado, mas aqui quem impede a alta dos derivados é o etanol. Armado de um simples pé de cana, o Brasil está imune, até aqui, à avassaladora alta que faz o mundo refém do combustível caro, fóssil e poluente, “manipulados por dedos sujos”, como enunciou o presidente Lula.

Somos auto-suficientes em petróleo graças aos 400 mil barris diários equivalentes de etanol. Essa contribuição representa economia anual de pelo menos US$ 20 bilhões. Estranhamente, tamanho benefício para as contas públicas nunca aparece nas contas oficiais.

A Europa insiste em que os biocombustíveis comprometem a produção de alimentos. Não é o caso do Brasil. Que matemática é essa? Um combustível - o etanol - que representa, quando misturado à gasolina, menos de 1% dos combustíveis consumidos no mundo inflaciona o preço da comida, enquanto a espetacular alta do petróleo, que representa os outros 99,1%, não tem nada a ver com essa elevação? São cultivados 1,3 bilhão de hectares em todo o mundo, e só 20 milhões destinam-se à produção de biocombustíveis. Quer dizer que 1,5% das lavouras matérias-primas de biocombustíveis inflacionam o custo dos alimentos?

Se fosse verdade que os biocombustíveis inflacionam, o que seria de nós, pobres brasileiros? Afinal, aqui, o álcool já representa mais de 50% do consumo e é justamente um dos maiores freios da inflação. O outro derivado da cana, o açúcar, não subiu nem um centavo nos últimos dois anos, contendo o custo da cesta básica. Ao contrário, o preço do açúcar caiu. E o álcool concorrerá, ainda, para o ingresso no País de cerca de US$ 3 bilhões, proporcionado pela exportação, este ano, de quatro bilhões de litros.

Enquanto multinacionais de alimentos, principalmente, se unem contra a produção de biocombustíveis no Primeiro Mundo, no Brasil, dos 140 milhões de toneladas de grãos que produzimos, pelo menos 10 milhões são cultivados em 1,6 milhão de hectares de renovação dos canaviais. Ao contrário da Europa, para nós o biocombustível etanol propicia (e barateia) a produção de alimentos.

O álcool ajuda a inibir o preço da gasolina, porque enquanto ele tem preço, a gasolina tem tarifa. Em conseqüência, tudo o que depende da gasolina, da produção ao mercado, também fica com custo menor com a ajuda do álcool. Seu preço é fruto da livre economia de mercado, enquanto até quem não tem carro é obrigado a pagar pela gasolina (que não usa!). Como se ao final de uma refeição, quem acabou de chegar ou não jantou também é forçado a pagar a conta.

Pense, antes de dizer que algo barato é vendido “a preço de banana”. Enquanto a Ceagesp de São Paulo paga R$ 700,00 por uma tonelada de banana, o produtor canavieiro recebe R$ 27,35 pelos mesmo mil quilos no campo (!). “Por isso, ninguém rouba caminhão de cana”, diz um amigo. Quer uma comparação humilhante? Na semana passada, uma tonelada de substrato de esterco era vendida por R$ 255,55, em Ribeirão Preto, capital brasileira do agronegócio e maior pólo produtor de açúcar e álcool do mundo.

Um litro de álcool hidratado, que abastece o carro com motor flex, saía da usina outro dia por R$ 0,67. Há exatos sete anos, saía por R$ 0,69. (Os preços da cana, do açúcar e do álcool cobrados pelas usinas são transparentes e estão à disposição de todos no site do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada da Universidade de São Paulo - www.cepea.esalq.usp.br/cepea).

Toda essa realidade revela algo importante: além do etanol
sustentar o preço da gasolina artificialmente baixo, ele ainda colabora para que esses cálculos afetem menos o bolso do país.Estendamos esse raciocínio para a energia, como um todo. Da mesma maneira que o etanol segura o preço da gasolina, o bagaço da cana pode vir a se tornar um inibidor do preço das energias hidrelétrica, térmica, proveniente de gás natural, do carvão... O futuro pode nos reservar uma situação energética mais independente, é só o país não perder tempo e utilizar o conhecimento e material que já tem como experiência. São muitos os frutos que o mercado da cana pode gerar.

Com os avanços produtivos que o Brasil tem feito nos canaviais e com etanol tão barato, podemos continuar resistindo às crises do petróleo e a sua avassaladora alta que faz o mundo refém do combustível caro e poluente. Conseguimos essa imunidade armados de um simples pé de cana.


MAURILIO BIAGI FILHO
Empresário e consultor do setor sucroalcooleiro
Maurílio Biagi Filho is a businessman and consultant for the sugarcane sector. (mbf@maubisa.com.br)
l Opinião l Opinion
Maurilio Biagi Filho
"Como 2 e 2 são 5 "
"When 2 + 2 is = 5"
Ana Carolina Casalinho
"Que mudança é esta?"
"Which change is this?"
Moacyr Castro
"A prova mora ao Lado"
"Proof is next door "
Marcelo Schunn Diniz Junqueira
"Quem é o vilão? "
"Who is the bad Guy? "

 

 
 
 
 
 
 
Opinion

When 2 + 2 is = 5

Nobody is the good guy in this “war”. Last year, the cost of the imported oil for Brazil was almost US 12 billion but here the one preventing the by-products prices to jump up is the ethanol. With simple sugarcane as weapon, Brazil so far has been immunized to the outrageous prices which turn the world hostage of an expensive, fossil and polluting fuel, manipulated by “dirty fingers” as stated by President Lula.

We are self-sufficient in oil thanks to the 400 thousand barrels a day equivalent of ethanol. This contribution represents annual savings of at least US$ 20 billion. Oddly, this benefit is never accounted for in the official and public reports.

Europe insists to allege that biofuels compromise the food production. It’s not Brazil’s case. What mathematics is that? A fuel – ethanol – when blended to the gasoline and represents less than 1% of the fuels consumed worldwide affects the food prices while the spectacular oil price raise, accountable for the remaining 99,1% has nothing to do with it? 1.3 billion hectares are cultivated around the world and only 20 million are destined to the biofuels production. And this means that 1,5% of the crops for biofuels feedstock affect the food costs?

If the statement that biofuels do affect the food prices were true, what would we, poor Brazilians, do? After all, ethanol here represents more than 50% of the total consumption and it’s one of the responsible elements holding inflation. The other sugarcane by-product, sugar, has not raised one cent in the last year, also holding the price of the basic food consumption basket. Quite the contrary, sugar prices have dropped. And the ethanol exports will bring into the country about US$ 3 billion, about 4 billion liters.

While the multinational food producers are getting united against the biofuel production in the First World, in Brazil from the 140 million tons of grains produced, at least 10 million are cultivated in 1.6 million hectares of sugarcane area renovation. Here, unlike in Europe, the ethanol production contributes to turn the food production cheaper.

Ethanol helps to hold the gas prices as while ethanol has a price, the gasoline is ruled by a tariff. Consequently, everything which depends on gas from the production to the supermarket, also benefits from a lower cost with the ethanol’s help. Ethanol’s price is a result of a free market while even those who do not have a car have to pay for it. It’s just like at the end of a meal, somebody who has just arrived and has not eaten, is stuck with the bill.

Think first before you say that something is so cheap that it is sold at “banana price”. While in the Supply Center in São Paulo, the banana producer received R$ 700,00 per ton, the sugarcane producer gets R$ 27,35 for same volume (!). “That’s why nobody steals a truckload of sugarcane”, says a friend. For the sake of an humiliating comparison, last week a ton of manure was sold by R$ 255,55 in Ribeirão Preto, the agribusiness capital and largest producer of sugar and ethanol in the world.

A liter of hydrated ethanol, which fuels the flex-fuel cars, leaves the mill at R$ 0,67. Seven years ago, it would be at R$ 0,69. (Sugarcane, sugar and ethanol prices charged by the producers are transparent and are available for everybody at www.cepea.esalq.usp.br/cepea).

This reality reveals na important issue: besides keeping the gas prices artificially lower, ethanol contributes for a lower impact of those calculations to the country’s pockets. Let’s apply the same logical to energy as a whole. In the same way ethanol holds the gas prices, the sugarcane bagasse can be turned into an inhibitor factor for the power prices from hydroelectricity, thermo, natural gas, coal….future can provide us with a more independent energy situation – it’s just about Brazil stop wasting time and use the know-how and material we already have as experience. There are a lot of good solutions that sugarcane is able to generate.

Maurilio Biagi Filho
Is a businessman and consultant for the sugarcane sector (mbf@maubisa.com.br)