A padronização da commodity

Além da garantia de oferta regular, especificação técnica será pré-requisito para etanol brasileiro conquistar mercados externos

O barril de petróleo chegou em junho aos inimagináveis US$ 140. Perspectivas já apontam que novos recordes de preço podem ser registrados até o fim de 2008, quando o valor chegaria a até US$ 180. O alcance desta margem de valores representa o melhor indicador de que o prazo para busca por combustíveis alternativos está diminuindo – panorama que favorece o produto mais viável econômica e ambientalmente: o etanol. Com preços de petróleo exorbitantes e anseio por soluções ecológicas, as perspectivas futuras de ampliação do consumo mundial do etanol são positivas. Analistas apontam que o álcool possa prover 20% de todo o combustível líquido usado no mundo, o que representaria 120 bilhões de litros por ano.

Atentos às essas oportunidades, o Brasil apresentou mais de 80 projetos de novas usinas desde 2005 – dezenas já implantados e outros ainda em maturação. Dados da Unica (União da Indústria da Cana-de-Açúcar) indicam a formatação de mais 90 empreendimentos nos próximos anos. Se todos saírem do papel, o país ultrapassaria o número de 450 unidades. Mas, para esse mercado se tornar realidade, não basta apenas construir centenas de usinas. A prioridade no momento é transformar o etanol em uma commodity que possa ser comercializada em bolsas internacionais, com cotações globais. Para isso, a difusão da produção por vários países se torna imprescindível. Hoje, em larga escala, apenas Brasil e Estados Unidos produzem e consomem etanol – em menor margem, a União Européia também é fabricante. No resto do mundo, outros países ainda avaliam possibilidades de misturar álcool à gasolina.

Em todo o mundo, os possíveis consumidores de etanol só optarão por essa adição quando tiverem garantia de oferta regular, a partir de produtores confiáveis e diversificados – universo que deve ter mais componentes, além de Brasil e EUA. Nenhum outro país, porém, começará a fabricar um combustível que pode ser rejeitado em alguma localidade do planeta. A regularização como commodity e globalização do etanol exigem um pré-requisito indispensável: a padronização de especificações técnicas do produto, hoje feito com diferentes parâmetros nos três principais mercados produtores: Brasil, Estados Unidos e Europa.
Segundo a IETHA (International Ethanol Trade Association), centro mundial responsável pela padronização das regras do etanol, é preciso que o álcool tenha a mesma qualidade e especificações idênticas, para as tradings conseguirem comprar e vender em qualquer mercado do mundo – como acontece no universo da soja. Para o diretor executivo da IETHA, Joseph Sherman, sem padronização, será difícil o etanol se tornar commodity. “Vamos supor que uma trading compre etanol para negociar com a França, mas mude de idéia e resolva vender para Alemanha, onde a qualidade pode ser diferente. O produto não seria aceito”, exemplifica.

Nível das discussões

Ainda existem vários padrões que precisam ser mundialmente unificados. No Brasil, a padronização já foi elaborada pela ANP (Agência Nacional de Petróleo) e pelo Inmetro (Instituto Nacional de Metrologia). Mas as especificações brasileiras precisam ser compatibilizadas com as internacionais. Integrantes brasileiros têm se reunido com representantes da Comunidade Européia e dos Estados Unidos para negociar as especificações da padronização. Segundo o consultor de qualidade e especificação da Unica, José Felix Silva Júnior, participante nacional nas discussões, já há consenso sobre a maioria dos parâmetros debatidos. Das 15 especificações analisadas, nove são compatíveis aos três mercados – casos de cor, aparência, nível de acidez, além de densidade e o teor de enxofre, cobre, aço, ferro, sódio e sulfato. Segundo Sherman, índices como teor de fósforo, Phe e cloro exigem negociações ainda não concluídas. “Mas a principal discordância incide sobre o teor de umidade. Ainda não há acordo sobre este parâmetro. Os europeus estão sendo mais exigentes nesse aspecto”, comenta.

Os Estados Unidos produzem etanol com teor de água de 1% (em volume), valor reduzido para 0,5% no Brasil e apenas 0,24% na União Européia. Para Félix, não existe explicação técnica que justifique a exigência de quantidade tão baixa. “Eles alegam que altas quantidades poderiam levar a uma separação de fases entre álcool e gasolina devido às baixas temperaturas existentes na Europa, mas não concordamos”. Segundo o consultor da Unica, a Suécia – onde as temperaturas são tão baixas como em qualquer lugar da Europa - importa o etanol brasileiro com teor de água de até 0,4% e não registra qualquer problema de funcionamento nos motores.

Os brasileiros rejeitam o teor proposto pelos europeus porque a especificação aumentaria os custos de produção do etanol no país. “Para fabricar esse álcool no Brasil, nós achamos que há uma redução da capacidade de produção. As usinas produziriam menos no mesmo tempo de safra. Com isso, álcool seria mais caro”, explica Félix. O impasse criado sobre a questão da água paralisou temporariamente as negociações. O grupo de trabalho criado pelo Brasil, Estados Unidos e União Européia não estipulou um prazo para a conclusão das discussões. De acordo com Félix, havia uma vontade de determinar todas as especificações até o final de 2008. “Mas as conversas estão paradas. Não posso afirmar quando terminará o processo”, disse.
 

 
 
 
 
 
 
 

Brazil Overview

The Commodity Standard
Besides the regular offer, the technical specifications will be a requirement for the Brazilian ethanol to conquer the external markets.

The oil barrel reached in June the unthinkable US$ 140. Perspectives already indicate price records maybe registered until the end of 2008, when those values could reach US$ 180. These values represent the best indicator that the deadline for the search of alternative fuels is being reduced – a panorama which is favorable to the most feasible product from both the economic and environmental aspects: the ethanol.

With the outrageous oil prices and the quest for ecological solutions, the future perspectives for the increase of the ethanol consumption worldwide are very positive. Analysts indicate that ethanol could provide 20% of all the liquid fuel in the world, which represents 120 billion of liters a year.

Considering those opportunities, Brazil has presented more than 80 projects of new producing plants since 2005 – many of them already constructed and others being implemented. Data from UNICA (Sugarcane Industry Association) indicate the build-up of more than 90 units in the next years. If all of those really get to be implemented, the country would have more than 450 units. However, for that market to become real, it is not enough just to build units. The current priority is to transform ethanol into a commodity which can be commercialized in the international stock markets, with global rating.

For that purpose, the production being conducted in several countries is essential. Today, in large scale, only Brazil and the US produce and consume ethanol – in a smaller margin, the EU is also a producer. In the rest of the world, other countries still evaluate the possibilities of blending ethanol in the gasoline.
All over the world, the potential ethanol consumers will only choose that option when they have all the guarantees of a regular supply, from reliable and diversified sources – universe that must contain other elements than Brazil and the US.

According to IETHA (International Ethanol Association), worldwide Center responsible for the standardization of the ethanol rules, it’s necessary for the ethanol to have the same quality and identical specifications, for the tradings to manage to buy and sell in any market in the world – just like it happens with soy. For the Executive Director of IETHA, Joseph Sherman, without standardization, it will be very difficult for the ethanol to become a commodity. “Let’s suppose that a trading buys ethanol to negotiate with France, and then change their minds to sell it to Germany, where the quality may be different. The product wouldn’t be accepted”, states.

The Level of Discussions

There are still several Standards which need to be unified worldwide. In Brazil, the standards have already been elaborated by ANP and by INMETRO. But the Brazilian specifications need to be compatible with the international ones. Brazilian members have been meeting with representatives of the UE and the US in order to negotiate the standards.

According to the UNICA’s Quality Consultant, José Felix Silva Junior, national participant in the debate, there is already a consensus about the majority of the parameters. From the 15 specifications analyzed, nine are compatible to the three markets – color, appearance, acidity levels, besides density, levels of cooper, steel, iron, sodium and sulfate. According to Sherman, indexes such as phosphorus, Phe, Chlorine demand negotiations yet to be concluded. “The main disagreement is about the humidity level. There is still no agreement about this parameter. The Europeans are being more demanding about this aspect:, comments.

The US produce ethanol with a water level of 1% (in volume), a reduced value to 0,5% in Brazil and only 0,24% in the EU. For Felix, there is no technical explanation to justify the demand for such a low level. “They all say that high quantities would lead to a separation the phases between ethanol and gasoline due to the low temperatures in Europe, but we don’t agree”. According to the Unica’s consultant, Sweden – where the temperatures are as low as any other place in Europe – imports the Brazilian ethanol with a water level of up to 0,4% and doesn’t present any problem with their engines.

The Brazilians reject the levels proposed by the Europeans as this specification should raise production costs in the country. ‘In order to process this kind of ethanol in Brazil, we see a reduction in the production capacity. The units would produce less in the same season. Therefore, the ethanol would be more expensive” explains Felix.

The impasse created by the water issue stalled the negotiations temporarily. The Work Group created by Brazil, Us and UE has not stipulated a deadline for the conclusion of the discussions. According to Felix, there was a will to determine all the specifications until the end of 2008.
“But the conversations are stalled. I cannot tell when this process will be finished”, said.